Metro Jornal entrevista Eduardo Leite

Pré-candidato do PSDB ao governo do estado, o ex-prefeito de Pelotas diz que não descarta venda do banco desde que o montante seja usado para investimentos e não para pagar despesas

Pré-candidato do PSDB ao governo do estado, o pelotense Eduardo Leite, 33 anos, avalia que o acordo do Rio Grande do Sul com a União não é o ideal, mas é a “salvação possível”. Em entrevista aos jornalistas André Mags e Maicon Bock, o ex-prefeito de Pelotas diz que dará espaço para a iniciativa privada e que não descarta a privatização do Banrisul em seu governo. Confira os principais trechos da entrevista concedida na sede do Metro Jornal:


Por que o sr. quer ser governador?
Entendo que política é missão. É colocar-se a serviço da sociedade. Vejo em governos a grande possibilidade de a gente fazer transformação em escala na vida de muita gente. É por isso que eu quis ser prefeito da minha cidade e, tendo saído da função bem avaliado, com 87% de aprovação, elegi minha sucessora [Paula Mascarenhas]. Tudo isso me colocou na condição de ser lembrado para o governo do estado. Observando nas candidaturas disponíveis que nós tínhamos a contribuir com um projeto diferente em relação ao estado, resolvi encampar e assumir essa disposição e me colocar a serviço do meu partido para poder servir ao meu estado.


Pelotas vive atualmente uma onda de assassinatos. Qual é a dificuldade do município com o problema?
Na verdade, a segurança pública é uma tarefa de responsabilidade do estado. A prefeitura assumiu essa disponibilidade de atuar diante da falência do estado no setor. Não é um problema de Pelotas, mas do Rio Grande do Sul. Dos cinco indicadores apurados pelo Pacto pela Paz, o único que não teve redução foi homicídio. Assaltos a pedestres, roubos a residências, todos os outros tiveram redução de 20%, 30%. A questão dos homicídios é muito complexa, pois envolve o tráfico. A segurança estará no centro do nosso plano de governo, inclusive agora com o delegado Ranolfo [Vieira Júnior, do PTB, indicado a vice na semana passada], que conhece o setor e pode ajudar muito.


Ele poderia acumular as funções de vice e secretário da Segurança no governo?
Entendo que ele deve dar uma colaboração, mas posições em governo nós não discutimos antes de ganhar o governo. Sempre me recusei a negociar antes.

Dos pré-candidatos, o sr. é o que mais domina as redes sociais, é muito presente. Numa propaganda política o sr. apareceu na TV de camiseta básica branca. É um novo perfil de político?
O mundo muda. Os entendimentos, as compreensões, a sociedade muda. A política tem símbolos importantes. Muito mais do que discursos, com ações concretas, a gente precisa ser diferente. E alguns símbolos são importantes, como o despojamento, desapego das benesses e benefícios que as autoridades têm nos dias atuais. E acho que eu pude demonstrar isso em Pelotas não concorrendo à reeleição, com um exemplo prático de desapego do poder, de que era possível abrir espaço para novas lideranças, fugir da política personalista e focar no projeto.

O sr. não concorreria à reeleição caso seja eleito?
Sou contra a reeleição e mantenho essa disposição se eventualmente eleito governador do estado.


Qual sua avaliação sobre o acordo de adesão ao Regime de Recuperação Fiscal?
Não é uma maravilha desejada pelo estado. Ele é a salvação possível diante do estado crítico que as contas públicas atingiram no Rio Grande do Sul. Temos 62% dos gastos com folha de pagamento com inativos. É o único estado do Brasil que gasta mais pagando aposentado do que servidor da ativa. O segundo é São Paulo, com 46%. Essa situação grave nos impõe buscar essa negociação. O mais importante é que o Regime de Recuperação Fiscal vai dar uma janela de oportunidade de três anos, podendo ser prorrogado por mais três, sem pagamento da dívida com a União. Se nada for feito nesse período, em seis anos nos reencontramos com a dívida e só teremos adiado o colapso. Temos que fazer investimentos em infraestrutura – o estado tem deficit de R$ 39 bilhões nessa área. Claro que o estado não tem essa disponibilidade financeira. Então, tem de fazer parceria com a iniciativa privada. Temos também alíquotas de ICMS majoradas em setores que atingem a sociedade toda, que afetam a competitividade.


O estado deve manter a alíquota maior do ICMS?
A manutenção da alíquota é necessária para haver um plano de transição. Por isso não pode ser abrupta, especialmente numa troca de governo.


Aqui na capital, o prefeito Marchezan, do seu partido, defende privatizações, desestatização e PPPs em todas as áreas. Seu governo seguiria na mesma linha?
O PSDB, é o que nós pensamos, dá liberdade para a iniciativa privada empreender. O povo gaúcho é talentoso, é empreendedor. Em um determinado momento, porém, nosso estado optou por um caminho de um governo pesado, que hoje sufoca essa capacidade empreendedora.


O que o sr. acha da venda de estatais, dadas como garantia à União?
O mais importante em toda privatização de empresas é que seja pensada como troca de ativos. Vamos nos desfazer de um patrimônio para investir em outro. Segurança, saúde e educação têm de ser entendidas também como patrimônio.


O Banrisul poderia ser privatizado no seu governo?
Como eu disse, desde que seja para alavancar uma nova política de desenvolvimento, não pode haver preconceitos em relação à privatização do banco. É um patrimônio do estado. Se servir para alavancar investimentos em outros setores mais estratégicos, ele pode estar, sim, nessa lógica de privatização. O que não aceito e não compactuo é com privatizar para colocar no custeio, o que o atual governo está fazendo: vendendo ações para pagar salários e despesas da máquina. Isso está errado.


No seu governo, os servidores continuarão tendo os salários atrasados?
É prioridade colocar em dia. Todo o esforço fiscal será para isso. É condição para a boa prestação do serviço.


Qual a sua avaliação sobre o governo Sartori? Em agosto do ano passado, o sr. considerou o governo “lento”.
Cada governo enfrenta os desafios do seu tempo. E o desse governo foram a grave crise fiscal, herdada do governo anterior, mas faltou a ele ter ênfase num projeto de desenvolvimento para o estado. A pauta fiscal é uma parte da agenda, mas o governo não pode se esgotar e ficar encurralado como ficou. As primeiras medidas de reestruturação do estado só vieram no fim do segundo ano.


O vínculo com Aécio Neves, que já disse ser um grande amigo seu, pode atrapalhar?
No PSDB entendemos que todos têm direito à ampla defesa, inclusive o ex-presidente Lula. Quem for julgado e condenado deve cumprir pena, inclusive Aécio. Você não vê ninguém na rua pedindo a liberação do ex-governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo nem que Aécio volte a ser candidato à Presidência. O que defendo é que a lei vale para todos.


O sr. usa muito a palavra “coragem”. Coragem para fazer o quê?
Coragem para as medidas que precisam ser feitas independentemente da manifestação de grupos. Para ouvir o silêncio da maioria.

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